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Quarta-feira, Abril 25, 2007
Por esses dias me peguei em lembranças. Viagens ao meu passado, desde quando era criança e coisa e tal. Dizem que recordar é viver; não sei se isso é válido dizer, mas é que é bom, isso é... Se bem que quando começo a lembrar de minha mãe, meu pai, meu tio Rodolfo e minha tia Judite, e todos eles brigando comigo por nenhuma razão, pelo menos nenhuma que tivesse razão para mim, me dá vontade de chorar. Por sorte ainda tenho a figura de meu avô, como eu gostava dele... Mas espere um pouco; foi ele que me deu um relógio quebrado de herança enquanto minha irmã ganhou um monte de coisas daquele velho safado e mulherengo. Não se perdeu nada quando ele afundou junto com aquele tal de Titanic. Aliás, penso até que tenham afundado o navio para se livrarem daquele chato.
Continuando e mudando um pouco o enfoque destas lembranças... Mas aquelas broncas que eu levava de minha mãe não saem da lembrança. Ela dizia que eu era um sujeitinho imprestável; que não prestava nem para chorar. Certava vez ela me largou numa feira e eu fiquei lá plantado por horas olhando para todos os lados sem saber o que dizer ou fazer. Lágrimas vinham aos meus olhos, mas não sabia direito como deixar a coisa emocionante. Portanto, para quem me visse, pensaria que algo teria caído nos meus olhos apenas, um cisco, por exemplo. Pensaria que isto era coisa sem importância e coisa e tal. Gritar pelo nome de minha mãe? Não! Eu morreria de vergonha se tivesse de gritar alguma coisa, qualquer coisa que fosse. E se por um acaso viesse a fazer isso levaria uma surra.
Voltando agora para minha realidade; nesta segunda-feira acordei entre 5h e 6h, e como não tinha mais nada a fazer fui para a janela observar a transformação da noite em dia. E enquanto ou olhava a escuridão percebi a movimentação do cotidiano começando. Primeiro passou o entregador de jornal insandecidamente com sua bicicleta repleta de periódicos descendo uma ladeira a toda velocidade para fazer suas entregas. Depois vi o proprietário da panificadora abrindo a porta do estabelecimento com o auxílio de mais duas pessoas... É, o dia estava começando, pensei. Momentos mais tarde vi o tal entregador de jornais empurrando sua bicicleta com bastante dificuldade. Mais tarde ele teria de consertar o aro dianteiro, pois ficou todo entortado. Provavelmente rebentou-se em algum muro, ou poste, ou em algum carro que estivesse estacionado, ou andando, sei lá.
Lá pelas tantas senti um cheiro de peido na sala, em princípio pensei que fosse o guapeca de casa, mas ele estava dormindo lá no nosso quarto. Aliás, este foi o cômodo que ele adotou para passar as noites. Talvez seja até este o motivo de eu perder o sono e acordar de madrugada; o bicho come igual a um sei lá o que antes de dormir depois passa mal, aí fica resmungando a noite inteira. E com toda a barulheira que ele faz acabo acordando. Bicho miserável. Mas dando continuidade; o cheiro se tornou intenso na sala, pensei até que fosse eu o responsável pelo gás expelido no ar, mas logo descartei esta hipótese, pois os meus são mais brandos.
Então, quando eu já começava a me acostumar com aquela fedentina, uma fumaça surgiu de repente e, como num passe de mágica, surgiu um velho barbudo, levemente barrigudo e gesticulando coisas como se fosse um mágico em dia de apresentação. E toda esta encenação com uma música de Nick Cave ao fundo. Bem teatral mesmo.
-- Valha-me, Baltazar! Salda-me, homem, se quiser. Se não quiser também não faz a menor diferença, pois sou Eu, o teu chapa. Gritou assim o tal velho com seus cabelos emaranhados e cheirando à fritura.
-- Oh, és Tu homem? Perguntei-lhe assim, num misto de assombrado e surpreso.
-- Ô Balta; pare com esta cena ridícula. Até parece que viu um fantasma. Sou apenas Eu que veio te visitar, pois estava de saco cheio de ver aqueles anjinhos fresquinhos fazendo suas tradicionais fresquices pelo céu... Céu também é uma maneira de dizer. Aliás, quem inventou esta história de céu, de paraíso e esta coisa toda acreditava mesmo que fosse assim. Mas não vou discordar dos ideais dele. E sabe que mesmo depois de 3 mil, ou 4 mil anos passados este sujeito continua alucinado? Não teve céu para consertar este miserável. Bom, cada um vê e acredita naquilo que quer. E não sou Eu quem vai mudar esta linha de pensamento. Para ter uma idéia do que acabei de dizer, posso surgir deste mesmo jeito que surgi para você em uma igreja repleta de cristãos e todos, Eu disse todos, incluindo aí o padre da paróquia, correrão de Mim que nem não sei o quê. Dirão até que coisa do capeta o que acabaram de ver. Falando em capeta; outra história mal contada... Coisa de romano. De certa forma eles foram bastante espertos ao inventar tal entidade e toda esta carochinha religiosa. Bom, na verdade eles não fizeram por mal nem erraram tão feio quanto penso, pois realmente o mal existe, caso contrário tudo descambaria para um lado só da balança. Mas também não é da forma que costumam dizer por aí. Inventam coisas demais. Mas isto é uma outra história. Disse-me assim, elucidamente.
Aquilo tudo estava soando de maneira incompreensível para meus ouvidos. Meus pensamentos estavam longe, meus olhares perdidos e uma conversa estranha. Nada daquilo parecia estar de acordo para mim. Alguma coisa parecia destoar de meus conceitos... Mas o que é que estou dizendo, digo, pensando? Conceitos são coisas que sempre gostei de criticar e...
-- Está pensando bem meu velho; conceitos surgem através de consensos, que muitas vezes não condizem com seu ou meu gosto pessoal. E em se tratando de religião os conceitos, na maioria das vezes, batem de frente com qualquer coisa que eu venha a pensar, pois nenhuma das pessoas que inventou um termo ou uma lei perguntou a Mim se estava certo ou não no momento de escrever na tal Bíblia... Aliás... Deixe para lá, você não vai entender mesmo. Enfatizou assim o Todo Poderoso enquanto colocava para tocar um disco de Joseph Arthur, pois aquele disco do Johann Sebastian Bach já tinha enchido o nosso saco.
Quando estava para perguntar sobre a forma que ele realmente tem ele me disse:
-- Tal dúvida fica para outra ocasião; daí já aproveito para responder a mesma pergunta para uma lesma que topei ontem não lembro onde. Falou-me assim.
-- Lesma? Lesmas falam? Perguntei todo cheio de curiosidade.
-- Não vá me dizer que você acredita naquela história de que só humanos têm o poder da comunicação, ainda que de maneira primitiva? Todos os outros seres se comunicam. Afinal, como você pensa que eu descubro tudo por aí? Ô Baltazar... Quanta prepotência você expeliu agora. Não vá dizer que acredita naquele papo-furado de que só humanos têm alma... Alma... Outro assunto que daria uma tarde de prosa. Bom, tenho de ir agora. Vi, durante nossa agradável conversa, que uns anjinhos boiolinhas estão metendo seus dedos engordurados de algodão-doce nos meus vinis do New Model Army. Decididamente não gosto quando fazem isto. Até outra hora meu velho. Falou o que falou e sumiu numa nuvem incandescente de gases fétidos. Quanto a mim, fiquei ali, pensando na vida e refletindo sobre as palavras ditas. Em seguida amanheceu de fato, daí fui dormir novamente, pois estava cansado de tudo isso.
Aqui estava o entregador de jornais; "abraçando" um poste. Por isso sua bicicleta ficou torta.
Oiram Bourges 14:52 [+]
Quarta-feira, Abril 18, 2007
Por esses dias resolvi fazer algo inusitado, diferente, estranho até, mas claro, dentro de minhas capacidades. O que fiz? Fui a uma competição... Na verdade era rinha de insetos. Lá aconteceram combates entre pulgas, percevejos, piolhos, baratas. Se eu vi alguma coisa? Claro que não. Fiquei na ala daqueles que não pagam para ver essas nojeiras, e para aqueles que ficam nesta ala não recebem na entrada a luneta ou o binóculos. Até por que, se eu quisesse ver, e tivesse algum destes aparatos, não conseguiria ver tal bizarrice pelo fato de que um gordão assentou sua enorme bunda encerada em uma cadeira não menos encerada bem na minha frente. De modo que se posicionou categoricamente entre eu e o estranho espetáculo. De certo modo isto foi até um alívio para mim.
Mas então, o que fazia eu lá? Oras, conversava com outros tantos que não queriam olhar para esta besteira. Passamos o tempo todo bebendo e conversando sobre qualquer outra coisa sem importância... Coisas de pessoas com tempo de sobra e que não sabem como administrar este tempo, nem administrar outras pessoas, nem a vida, nem nada. Como poderia resumir isso tudo numa só palavra? Isto é simples: aposentado. Mas continuando; posso dizer que vivi horas agradáveis, ainda que, por vez ou outra sentisse um dos competidores, digo, dos combatentes da rinha, dentro de seus momentos de descanso, nos atacando por debaixo de nossas roupas nos tirando do descanso. E quando isso acontecia, seus donos ficavam enfurecidos com a platéia, pois esta, parva de tanta coceira, acabavam eliminando seus estúpidos investimentos com um simples espremer de unhas ou uma simples chinelada. Afinal de contas é muito difícil enxergar o número nas costas destes bravos e enérgicos e diminutos lutadores no escuro sem porra da luneta ou dos binóculos ou de uma miserável lanterna. Definitivamente não dá.
E quando ocorrem tais acidentes fecha o pau entre a platéia e os investidores, digo, loucos. Se bem que, no final das contas, todos que vão lá são, e só podem ser considerados loucos. Falando em loucura, as músicas que lá tocavam também eram loucas, consecutivamente, incentivavam a todos cometerem loucuras, situação esta totalmente plausível partindo de um ambiente destes. Um alto-falante no topo de um barracão berrava umas mazurcas sem parar... Uma verdadeira loucura. Se o Adalberto estivesse por lá diria que era coisa dele. Enfim, apesar de tudo, gostei daquilo. Pretendo até voltar mais vezes naquela espelunca. O problema de ir a um lugar como este é que quando se volta para casa sempre vem com um daqueles micro-lutadores agarrado em uma das pernas e chupando sangue, e ainda, se tiver sorte, ou azar, depende aí do ponto de vista, vem junto com o micro-atleta toda a comitiva dele. Confesso que isto é um tanto desagradável, mas sei lá. Tantas coisas são, mas continuamos fazendo, ou aceitando sem reclamar. É isso, até uma próxima.
Mais tarde descobri como os "empresários" contratam, ou capturam seus lutadores. Veja você também como eles fazem isso:
Pulgas de gatos são retiradas pelos próprios gatos. Só eles sabem como fazer isto.
Para as pulgas de cachorrinhos de madames, ou, bundinhas, como são mais conhecidas, são contratadas pessoas de grande porte e que saibam usar de "psicologia" para desempenhar tal papel.
Pulgas de cachorrinhos vira-latas são extraídas com piadas contadas por palhaços contratados pela comissão organizadora da rinha. Nada muito diferente do que acontece com nós humanos; alguém veste um terno, se enfeita bem, conta uma lorota qualquer para a gente ficar alegre e pronto, leva nossos votos, nossos trocados e o que mais quiser. Quanto às baratas, piolhos e sei lá mais o que, basta revirar os lixões e os bueiros da cidade, ou as cabeças das crianças desamparadas pela sociedade.
Oiram Bourges 17:02 [+]
Quinta-feira, Abril 05, 2007
Estava eu sentado tranquilamente numa pequena banqueta, pois minha poltrona fora doada para uma instituição de caridade. Contudo ninguém da tal instituição aceitou a oferta pelo fato da poltrona estar praticamente destruída, fedida e sei lá mais o que de ruim. Então acabaram levando para um lixão da cidade, ou para alguém incinerar aquilo, não sei ao certo. Bom, estava eu lá, assistindo um daqueles programinhas xaropes onde o apresentador fala uma estupidez qualquer para começar com as conversas, enquanto isso é interrompido por um convidado para ouvir uma outra estupidez qualquer, até que entra um segundo convidado e fala uma estupidez sem tamanho, aí todos discutem loucamente até chegarem a resultado algum, tamanha estupidez.
Desta vez o tal programa apresentava uma teoria estúpida, quero dizer, mais uma; falavam, tanto os convidados quanto o apresentador, uma besteira atrás da outra. Diziam que a calvície é resultado da impotência sexual e vice-versa, que todo o careca é um inútil na cama por não saber disso, não saber nem que é inútil e nem que é calvo... Ã... Bom, só sei dizer que acabei cochilando sentado na banqueta mesmo; primeiro por que aquela ladainha, aquela besteira toda estava pra lá de chata, segundo por que o calor estava insuportável, e isto fez baixar minha pressão arterial. Logicamente que o fator álcool facilitou minha vida causando-me sono. Livrou-me, digamos assim, deste martírio televisivo.
Contudo, quando já me encontrava num mundo maravilhoso do faz-de-conta, no mundo dos sonhos e coisa e tal, recebi a visita do detetive belga, o Hercule Poirot, sua estúpida criada Antonielle, seu ajudante o capitão Hastings e a senhorita... Não lembro do nome dela. Circulavam eles pelos ambientes que minha mente criava todo instante em busca de explicações para o aparecimento de um pé de plástico sobre a mesa onde o famoso detetive costuma tomar café da manhã. Maluquices à parte, deixe-me contar como as coisas aconteceram... No sonho, claro.
Poirot: -- Antonielle, Antonielle, venha cá imediatamente! Disse Poirot assim à sua criada enquanto tamborilava os dedos da mão direita insistentemente sobre o tampo da mesa onde costuma tomar café.
Antonielle: -- Ques qui ces¿t mousieur Poirot? Perguntou toda agitada procurando se restabelecer da pequena corrida que dera até lá, e ainda, procurando arrumar a madeixa que se esvoaçara neste período de pressa incalculado.
Poirot: -- Venha cá e me diga o que é isto. Ordenou-lhe enquanto indicava nojentamente para o tal pé. Então emendou: -- Como já suspeitava; não sabe dizer o que é isso. Aliás, não sei por que ainda insisto em fazer com que outras pessoas participem de uma investigação... Nunca sabem nada, nunca ouvem nada, nunca nada... Hastings! Onde está você neste exato momento? Perguntou em tom alto e para o alto, e lógico, levemente enfurecido por também não saber nada que acontece dentro de sua própria casa.
Hastings: Em tom solene, e tipicamente inglês responde: -- Yes!?
Poirot: -- Preciso que me acompanhe imediatamente ao hospital, ou ao necrotério, ou a uma casa de artigos de umbanda. Disse-lhe nervosamente enquanto tentava desatar o nó do cadarço do sapato esquerdo, pois havia apertado demais e seu pé estava levemente doído. Contudo, teve um rompante na emoção e gritou: -- Hastings! Precisamos pegar um avião e viajar para Curitíbia imediatamente.
Hastings: -- O senhor quis dizer Curitiba não é mesmo? Fez esta pergunta só para testar a agudez da memória do companheiro.
Poirot: -- Não Hastings, quis dizer Curitíbia mesmo, e por quê? Por que naquela cidade todos os moradores se parecem com o osso da perna, a tíbia; duros no contato e doídos quando se experimenta diretamente numa perna desprotegida. Mas tudo bem, os ingleses funcionam na mesma proporção. Emendou o detetive durante uma alisada no bigode. -- Continuando; precisamos ir até lá por que desconfio que é lá que está a resposta para o aparecimento deste pé de plástico aqui. Não que uma coisa tenha haver com a outra mas... Ã... Wherever.
Então, Poirot, Hastings, a criada ignorante, a Antonielle, e a senhorita... Que não me lembro do nome, e que até agora não se manifestou no sonho, fizeram suas malas e se prepararam para viajar. Contudo, como estavam no meu sonho a coisa toda virou numa loucura só. Lá pelas tantas a xata da Xuxa aparexeu no meu xonho gritando feito uma desesperada ao lado do Tatu da Ilha da Fantasia enquanto tocava, ao fundo, um Ragtime tocado por Scott Joplin. Logicamente que o som vinha do rádio do Adalberto, sim, aquele magnífico exemplar de aparelho sonoro que tem ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves.
E depois que todos se abraçaram como se fizessem parte de uma grande comunidade celta, dançaram uma música das Frenéticas quando viram que o Alemão do Big Brother ganhou naquela pura armação que se diz jogo. A esta altura dos acontecimentos eu suava sem parar na tal banqueta, de tão desesperado que estava. O Gran Finale desta história foi mais louco ainda; este tal de Alemão, por alguma razão pela qual desconheço, tomou um cacete num corredor polonês, organizado pela empresa televisiva em questão, sendo que não faço a mínima questão em divulgar, e depois todos foram saindo pela boca de um enorme coelho da Páscoa gigante e cor-de-rosa.
Logicamente que acordei suando, trêmulo e morrendo de sede. Depois voltei para ver o que passava na televisão; era um programa de auditório onde tinha roletas para serem rodadas, balões para serem estourados, incluindo aí os sacos dos telespectadores, e para completar, muita pegadinha e piadinha sem graça... Falando em coelho... Resolvi sair para procurar uns ovos de chocolate para comprar. Sabe, adoro comer este tipo de coisa, ainda mais depois de sonhar uma coisa tão fora de jeito como esta.
Aqui talvez tenha sido uma continuação do meu sonho, se é que posso chamar isto de sonho. No entanto... Sei lá. Já o tal do Poirot, Hastings, Antonielle, a senhorita... Não lembro, a Xuxa, o Alemão, o Tatu, o coelho da Páscoa e sei lá mais quem... Que sei lá eu onde foram parar.
Oiram Bourges 01:24 [+]
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